domingo, 13 de março de 2016

A sementeira, que germina e é colhida -Taizé [adaptado]

A comunidade de Taizé é aquele local que "Deus quis, o Homem sonhou e a obra nasceu" (Fernando Pessoa). Impulsionado pela vontade de Deus, surgiu o sonho do Irmão Roger, para quem era essencial criar um espaço “onde a bondade do coração e a simplicidade estivessem no centro de tudo”. O sonho concretizou-se nesta comunidade ecuménica, onde, jovens dos quatro cantos do mundo são desafiados a viver uma semana fundada no Evangelho, através da vida em comunidade, simplicidade, oração e silêncio. Em elevado número, alunos do Secundário de Viseu, Santarém, Coimbra, Aveiro, Porto, Sintra, Amadora, Braga, Lisboa, Guarda, Vila Real, Portalegre Castelo-Branco e Leiria-Fátima, responderam “sim” a este apelo juntando-se, no inicio da quaresma, a outros jovens vindos de França, Itália, Austrália, Polónia, Alemanha, Holanda, entre outros países.

Alguns destes alunos ainda hoje não sabem bem o que significaram aqueles dias, mas isso é extraordinário. E a resposta a esta genialidade vem da matemática, pois é das incógnitas que se chega à solução, às respostas que darão um sentido real para o que se viveu e sentiu. Uma coisa é certa, a surpresa invadiu muitos destes corações, deixando-os inquietos e serenos em simultâneo.

É bom rebobinar o filme e recordar que em cada manhã, antes de almoço e após o jantar, todos acorriam à oração em resposta aos sinos. Ou seria em resposta a algo mais? Muitos ainda hoje não sabem colocar em palavras porque é que rezar três vezes ao dia, em comunidade, foi tão bom e fácil. Sinceramente? Aqui as palavras são dispensáveis.
Mas a oração não fez tudo. Foram precisos os momentos de silêncio, que no início não eram nada fáceis, já que o pensamento teimava fugir para o que soava a inconveniente, "o que devo pensar?", "quando termina este momento, quero é cantar", "onde tenho a senha das refeições?", ..., mas com o tempo, o barulho da ausência das palavras foi-se dissipando e o silêncio até parecia querer tornar-se hábito. Alguém disse que silenciar o coração era fácil? Isto de dar voz a Deus e ser capaz de a escutar, precisa de tempo para preparar o espaço do coração.
Também os encontros, as conversas fortuitas e as partilhas nas reflexões bíblicas, foram sementeira. Quantas vezes eram capazes de se rever no que o outro dizia, ou no que o Evangelho anunciava. Chegava a ser espantoso, pela forma como cada som encaixava na vida de cada um.
Se só tivessem havido estes momentos, não teria chegado. Foram necessárias as cantorias no Oyak ou durante o dia. Tamanha alegria são imagem da semana e de tanto amor no coração.
Quanto às refeiçoes? Deixemo-nos de tretas, também elas falavam de simplicidade, por isso uma colher bastava. Tal como dormir em camaratas, no saco cama que cada um trouxe, não foi problema, nem a ausência de internet e de televisão. Esta ausência obrigou cada um a olhar o outro nos olhos e a contemplar cada momento como único.
Podendo parecer fácil, foi uma semana que exigiu um desprendimento dos enfeites e das distrações do dia-a-dia. Ainda assim, estes jovens foram capazes de se abandonar ao que a semana lhes oferecia, conseguindo partilhar de um pedacinho da experiência de deserto com Jesus.
Nos primeiros dias podiam-se ver alguns corações um pouco perdidos, pois estavam a descobrir o lugar, as rotinas e a simplicidade. O silêncio e a oração pareciam ser uma novidade, mas cada um, a seu ritmo, encontrou o seu espaço e deixou que o pouco conduzisse ao essencial. E foi aqui que cada um começou a fazer um caminho pessoal e distinto de todos os outros. Foi aqui que a sementeira começou a germinar.

Pegando na expressão de Fernando Pessoa, e já que este post é a adaptação de outro, porque não dizer que Deus semeou, os "miúdos" cuidaram (cuidam) e o mundo colherá? [Também os "graúdos" estavam como os "miúdos"]
Olhando para trás, passado um mês desde o regresso, revejo esta experiência como se de uma parábola cheia de vida e significado se tratasse. Como uma história cuja pedagogia amolece os corações mais duros e enriquece os mais voláteis. O que ali se via não eram corações estacionados, mas que palpitavam e permaneciam em "ponto morto" a absorver o máximo. Mas também será verdade constatar que se sustinham num impasse, quando cada um tentava saber o que fazer com tanto que estava a viver. 

Estes jovens fizeram uma peregrinação pessoal com e para Deus, e se para uns resultou numa experiência de Deus, para outros, poderá ter sido um despertar para o encontro pessoal com Jesus, muito através dos outros, do Evangelho e do modo de vida simples da comunidade de Taizé. Esta semana tocou cada um de modo diferente e suscitou uma experiência pessoal e transformadora.

Na viagem de regresso os alunos puderam partilhar um pouco da sua semana. Se alguns destacaram a simplicidade e a surpresa que foi a oração, outros houve que valorizaram o convívio entre todos, a paz e a serenidade que experimentaram, o facto de sentirem ter crescido na fé e de o perdão passar a ter um significado novo nas suas vidas. Este momento de partilha revelou-se muito enriquecedor, já que o que cada um sentia não era assim tão diferente dos outros, no entanto, o caminho para lá chegar foi, e continua a ser, pessoal.

Taizé é apenas um lugar, mas o que se lá vive é muito especial e profundo. Ir lá só faz sentido quando se regressa, pois é cá, na família, na escola e com os amigos, que cada um tem que ser o “rosto de Jesus”, através de gestos concretos e de um testemunho cheio de alegria. Então, se desta semana se fizer a sementeira, deixando germinar de uma experiência um encontro que terá frutos, quais serão colhidos no futuro?
Agora é o tempo de fazer crescer o que foi semeado para, na altura certa, alguém colher os frutos, porque outras sementeiras se avizinham e aí, é tempo da lavoura e preparar o terreno, que é o coração, para novas sementes acolher. Será assim toda a vida.


Até já! [ Este texto foi adaptado do post de 20 de fevereiro - "Uma semana, uma experiência, um encontro - Taizé"]



quinta-feira, 10 de março de 2016

Levar para a vida - Taizé



Ninguém pode levar tudo e todos para casa, mas todos podem levar alguma coisa e alguém para a vida.


Até já!

quarta-feira, 9 de março de 2016

This is your fight song (by Piano Guys)


Inspirador.

Até já! (Versão original de Rachel Platten)

Mãos cheias

No meu bairro, todos os dias em que o sol espreita se repete esta imagem.
Que doçura de passeio.
Aquelas mãos estão tão cheias de tudo.
Receio o dia em que uma das mãos seja roubada, em que só veja um a passear de mãos cheias de nada.

Até já! O casal Up-Altamente do meu bairro, uma inspiração. Que muitos saibam ser assim uma vida inteira.

terça-feira, 8 de março de 2016

Pedagogia do amor - Taizé

É fantástico como todos os Icons nos falam de amor. Daquele amor de querer o bem do outro.
São muitos os que se podem rezar na igreja de Taizé, mas fico retida no da Misericórdia. Nele é retratada a Parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 30-37)
Olhar para aquela Parábola e rezar aquela história, deixa-me maravilhada. A pedagogia que Jesus utiliza é tão cheia de mistério. 
Jesus usa e abusa da pedagogia do amor, sim do amor que é querer o bem do outro. Para além desta, Jesus deixa abundar a pedagogia do olhar. Nesta história, o Samaritano reveste-se do olhar de Jesus e é tão o Seu rosto.
Olho à minha volta e entro na cena. Aí me perco!
Ao contemplar aquelas imagens revejo-me em tantas delas. Já estive caída, já fui Sacerdote e Levita. E Samaritano? Samaritano também, mas não tantas vezes quantas podia ter sido.
É neste momento que me detenho em tudo o que acontece à minha volta e no barulho provocado por tantos passares ao lado, de tantos fazer vista grossa, de tantos seguir em frente ignorando o outro e fazendo-o sentir-se inferior, de tanta indiferença.
A questão, "e quem é o meu próximo?", dá lugar a uma outra, o que faço ao meu próximo? O que fazemos ao nosso próximo? 
É tão fácil apontar erros aos outros e distanciar-se do gesto do Samaritano que vive aquela história, olhando o outro nos olhos e acolhendo-o num abraço. Como se não bastasse, ainda cuida dele. 
Todos nós somos feitos de remendos, erramos e não é pouco. Quantas vezes nada fazemos para tornar a vida de quem se cruza connosco um bocadinho melhor.  Então a cena repete-se. Qual cena? A de passar ao lado, de fazer vista grossa, de seguir em frente ignorando o outro e fazendo-o sentir-se inferior, aquela cena da indiferença.

Não chega conhecer, é preciso fazer abundar a pedagogia de Jesus, a que nos convida a olhar, a abraçar, a acolher, a cuidar e a amar. 
Amar como? Querendo o bem do meu próximo.
.

Até já! Quantos não deveriam ter passado por nós e, em vez de apontar o erro, o nosso erro, nos tivessem olhado nos olhos e abraçado? Talvez hoje fossemos um bocadinho melhores.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Sabedoria


As palavras pouco têm de sabedoria. 
Sábias são as experiências e o que delas se tira para a vida.

Até já

domingo, 6 de março de 2016

O despertar de Deus - Taizé

Todas as manhãs se ouvia bater à porta. 
Era hora de despertar e de sair da cama, um novo dia estava à espera.
Em cada amanhecer repetia-se o ritual e nele, o rosto de quem por aquele quarto entrava. Também os olhares ensonados eram os mesmos, bem como o desejo de que esse acordar fosse dócil e sereno.
Apesar de todas as manhãs o sono ficar em suspenso, cada alvorada era diferente, porque cada uma oferecia um novo dia, cheio de oportunidades, descobertas e encontros.
O dia surgia como um presente por desembrulhar e que, a cada amanhecer, começava a desvendar-se.
Mas o ritual não se ficava por aqui, já que no final do dia, noite cerrada, a cena se invertia, era hora de adormecer o dia e de, num fechar de olhos, descansar.
Para quem habitava aquele espaço, era sempre o mesmo rosto e o mesmo olhar que via no principio e no fim do dia, mas para quem aquela porta fechava, o que ficava eram os sorrisos, por vezes tímidos, mas que guardavam um grande encanto.

Pensando bem, este cenário suscita um mistério que parece exceder o simples mover olhos e portas. Não é de um simples sono que cada um é desafiado a despertar diariamente. 
Na realidade, todas as manhãs alguém bate à porta do coração de cada ser humano, no desejo mais profundo que se abra para a vida e para os outros.
Um despertar assim, é um abre olhos para as surpresas de Deus, O residente mais translucido da vida de cada um. Tudo porque n'Ele é mais fácil deixar transparecer a bondade e a paz do coração. 
O simples gesto, bater na "porta", revela o mais profundo desejo d'Ele para que cada um acorde para as Suas surpresas, para que desperte para a vida. 
Tal como no quarto todas as manhãs entrava o mesmo rosto, o que entra no coração é sempre o rosto de Deus, mesmo alguns não O reconhecendo como tal. Este acolhimento acontece muito através dos outros, da simplicidade e do silêncio. O despertar de Deus é sempre dócil, sereno, e pode perpetuar-se ao longo da vida. 
Cada alvorada de Deus é diferente, porque cada uma permite saltar para um novo dia, cheio de oportunidades, descobertas e encontros.
Também a noite para Deus faz sentido, pois é quando se "adormece o dia" que os sonhos começam a desenhar o projeto de cada um com sentido renovado.
Cada dia se pode tornar numa provocação para que cada um se deixe tocar e comover nos gestos, nos olhares e nas conversas.

Este acordar de que vos falo pretende despertar para uma vida nova, transformada e transformadora. Afinal de contas, por cada coração que se desperta, que se comove, se abre para as surpresas de Deus ... o sol brilha mais forte.
Até já!




sábado, 5 de março de 2016

Optar pelo bem - Amor


Para amar não é necessário gostar do outro, mas sim querer-lhe bem. Ou seja, eu até posso não gostar de alguém, mas amo esse alguém na medida em que lhe queira bem.

O amor é exigente, não é? Afinal, ele apenas resulta de uma opção pelo bem.
Até já!

quarta-feira, 2 de março de 2016

Viver da força do perdão - Taizé

Quaresma, conversão e Evangelho. Eis as três palavras que surgem do pó, nesta quarta-feira de cinzas.
É verdade que vêm com três semanas de atraso, mas as palavas quaresma, conversão e Evangelho, permanecem, ou pelo menos deviam permanecer, bem presentes na memória de cada um.

Com as palavras "Convertei-vos e crede no Evangelho", cada um se deixa marcar por uma cruz de pó. Sim, é uma marca de cinzas que fica, para que cada um se lembre que aquele momento convida a viver a quaresma como uma transformação interior, como uma conversão do coração.
Que conversão é esta?
Uma conversão que provenha da abstinência de atos egoístas e do fechamento em si, e se passe a refletir no acolhimento do outro.
Uma transformação que resulte, tal como Papa Francisco lembra, de um jejum de pessimismo, de palavras negativas, de descontentamento e de raiva.
Uma mudança que brote do coração e jorre atos de amor.
"Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás", mas se ao pó chamares amor, então, cada um é convidado a lembrar-se que é amor e que ao amor voltará, porque, tal como o pó, o amor é frágil, e é na fragilidade humana que cada um deixa transparecer as mudanças que precisa deixar acontecer para ser feliz.
Esta marca de pó abre o coração ao perdão e ao que de melhor cada um tem. Quaresma são quarenta dias de um caminho, por vezes penoso, que ajuda a centrar-se no essencial, ou seja, no amor.

Para além da imposição das cinzas, desta noite destaca-se a cruz que cada um desenha na mão do outro e que o outro desenha na mão de cada um. É um simples sinal com valor simbólico extraordinário, já que propõe a cada um que acrescente ao seu projeto de vida um compromisso de viver da força do perdão.

Aquela cruz foi um momento de acolhimento no coração do outro, algo que só é possível pelo amor que o Evangelho anuncia.
Assim, de uma noite feita de símbolos, sinais e gestos, nunca é demais recordar, que este dia desafia a uma conversão ao amor.

Até já! (Essa cruz na mão, pode querer dizer que o amor é exigente e se revela em ações concretas.) 

terça-feira, 1 de março de 2016

Self-service versus take-away - Taizé

Olhar para Taizé e comparar a experiência de uma semana com um self-service ou um take-away pode parecer inadequado, mas não é descabido.
Ora vejamos! Ir a Taizé não é como ir a um self-service, em que cada um se serve do que quer, quando quer, como quer. Por outras palavras, em que cada um decide pôr em prática um projeto centrado em si, escolhendo quando rir, quando chorar, o que sentir, quando e quem abraçar, ..., tudo isto são coisas que não devem sair de si de forma controlada, se assim for, está a condicionar-se experiência e a viver o seu plano e não o que Deus tem sonhado para si. É aqui que entra o take-away.
Numa semana em Taizé cada um tem a possibilidade de pegar no que Deus lhe concede/ desperta no coração, e levar isso para casa. 
Em Taizé não és tu que te serves, é Deus quem te dá tudo pela oração, a simplicidade, os olhares, as conversas, os gestos e o silêncio. É Ele que te toca, por isso, para que Deus te sirva o que mais precisas, tens de Lhe dar espaço e ser capaz de O acolher.

Enquanto take-away, cada um chega, pára e é convidado a fazer uma viagem ao coração, à sua vida e à vida dos que lhe são importantes. E é aqui que Deus entra, como se de um drive-in se tratasse. É aqui que Deus faz "estragos" à dieta do amor e lhe junta novos nutrientes, bem saudáveis, como a generosidade, a misericórdia, o perdão, a alegria, ... .
Se no self-service cada um apenas se centra no projeto que quer para si, não deixando que nesse "serviço" entre Deus de forma clara, no take-away cada um é capaz de acolher o projeto que Deus tem para si e que se vai concretizar quando regressa a casa. Será um projeto em que cada um participa com sentido renovado e reforçado.

Ao fazer esta analogia não se está a dizer que Taizé é como uma cadeia de restaurantes, mas que alimenta muitos corações, alimenta.

Até já! (Há quem acrescente drive- through ou o gourmet ... cada um use  a imaginação)